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Relato enviado por: Administrador -

Uma viagem. Nos dois sentidos da palavra. Uma porque a prova era praticamente no fim do mundo. Outra porque foram 80km no meio de um lugar totalmente diferente de tudo que vi na vida. Terreno que era muito difícil correr, correr na neve caída no topo de uma montanha com um vento gelado e muito forte, descer em lugares que para mim seria impossível, atravessar pontes que em algum momento ela iria cair e podia ser exatamente quando eu estava nela, correr vendo aquela linda vista dos lagos e montanhas da Patagonia Chilena. Que viagem.

 

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A prova foi realizada em Puerto Natales, Chile, ao redor do Parque Nacional Torres del Paine. Eu nunca tinha ido para o Chile. As temperaturas eram mais baixas que 5 graus para o dia da prova. Para ajudar, a minha mochila com o que ia usar na prova não chegou. Emprestei alguns equipamentos e fui. Na cara e na coragem.

A prova largava 7h da manhã em um lugar onde o ônibus da organização deixou a gente. Estava frio. Eu já estava arrependido de estar ali. Estava com frio e pensava que algo podia correr mal, como aconteceu comigo em abril na Patagonia Run onde congelei meu corpo no km 75 da prova de 100km.

A prova largou. Ainda era noite. Eu usava uma toca de lã (nunca tinha corrido com toca de lã), uma bandana, uma segunda pele, uma camiseta, um corta-vento e um impermeável. Estava de bermuda e tênis rasgado. A prova começou subindo de leve. E já no km 5 eu me perco. O carro do fotógrafo estava na minha frente e pegou o caminho errado e fui atrás. Perdi tempo e ânimo. Voltei e encontrei o caminho da prova. Estava em ultimo lugar e cansado. Pensamento negativos apareciam em minha cabeça como nunca. Era só o início.

Os 30 primeiros km foram muito difíceis. Primeiro porque não existia trilha. Corríamos em um campo morto. Arvores mortas e podres com esqueletos de animais no chão. Seguia as estacas de marcação da prova. Muitas cercas no caminho que eu tinha que pular para continuar. Nunca tinha visto e feito isso na vida.

A montanha mais alta ficava no km 25. Neve. Pisava e afundava até o joelho. Era sensacional e ao mesmo tempo estranho. O que esperar de uma prova de 80km se o começo dela estava daquele jeito. E daquele jeito mesmo. Para descer esta montanha, era uma descida daquelas que era impossível de descer. Bom, depois de descer ela descobri que era possível, mas não faria de novo não.

Faltando 50km a prova ficou mais suave. Trilhas de verdade, um sobe e desce bem corrível. Administrei a prova como se fosse um treino. Parava nos postos de abastecimento, enchia minhas garrafas de água e continuava. Com o decorrer da prova a vista era cada vez mais deslumbrante. Em uma das últimas montanhas, vi algo que nunca tinha visto numa prova. Um carro capotado no meio da trilha. Devia ser da organização e estava lá no meio do nada esperando um resgate. Para mim, só um helicoptero para tirar aquele carro de lá.

Confesso que 80km não foi suficiente para um lugar com tamanha beleza. Quando na última descida eu avistava a linha de chegada era um mix de alegria com tristeza. Chegar e acabar com aquelas 12h de sofrimento ou continuar a explorar e se deslumbrar com tamanha beleza. Só a primeira opção estava disponível. E fui, todo feliz para linha de chegada! Aplaudido e elogiado por muitos, principalmente pelos que tinham completado antes que eu. Todos falavam: “que prova dura!”

O abraço que quase me derrubou quando cheguei foi o prêmio mais importante de ter feito aquela prova. 3 dias depois fiquei sabendo que fiquei no podio de minha categoria, mas fui e fiz o que tinha que fazer e peguei o ônibus de volta para meu hotel. Estava com fome e cansado, nada melhor que um lomo liso servido com um arroz em um bar de Puerto Natales.

Uma prova épica em lugar magnifico. Ultra Trail Torres del Paine.

 

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